Viajar, viagens e viajantes

Uma viagem ensina muito. Aliás, no meu entender há uma diferença entre viajar e o turismo. A expressão “coisa pra turista ver” define melhor o que eu quero dizer. Este tipo de viagem tende a colocar o indivíduo apenas como passivo espectador, muitas vezes de situações preparadas. Você vai à Europa, aí tem que correr até a Torre de Pizza, foto. Fontana de Trevi para atirar uma moeda, foto. Daí corre para dar uma olhadinha no Coliseu, foto. Depois voa para ver o Big Ben, fazer compras na loja da moda, comer no restaurante famoso, fazer uma gracinha com o guarda de Buckingham, foto. Um monte de quesitos que não se pode deixar de fazer. Cumprem-se tarefas.

Situações pré-fabricadas me incomodam. Claro, existem pessoas que curtem esse estilo, querem apenas ir aonde todos vão. Respeito a posição, mas acho que o Viajar oferece uma oportunidade de aprendizado que não pode ser esquecida. Não precisa escalar o Everest, navegar os oceanos ou montar numa bicicleta para encontrar a grande experiência do viajar. É deixar que a viagem te leve, apenas.

Viajar abre a oportunidade de se experimentar novas sensações, novas perspectivas para o olhar, novas situações. E elas estão em toda parte. Na padaria, no botequim, no ônibus – e, porque não? – no Louvre, no Guggenheim, na Torre Eiffel. Nada contra os clássicos, quero um dia conhecer, mas parece que vem sendo diluído o que se pode extrair, o que se pode viver numa viagem.

Viajar enaltece suas virtudes e põe à prova suas deficiências. Reativa o olhar da curiosidade e da descoberta, da percepção. Exercita o espírito e o raciocínio, que o cotidiano acaba atrofiando. Viagens são parte da natureza humana, nossa origem é nômade. Somos bípedes andarilhos. Será por isso que gostamos tanto de viajar? Uma memória genética, uma herança cultural? Sei lá, vai saber…

Às viagens devemos o intercâmbio cultural que permitiu a troca de especiarias, costumes, descobertas e genes. Viagens ampliam o nosso conhecimento, o nosso entendimento, os horizontes. Em uma viagem encontramos o continente americano, em outra, fomos à lua. Viajamos para andar, viajamos para descansar, para amar, para esquecer. Viajamos para ganhar dinheiro, viajamos para gastá-lo. Viajamos para encontrar, viajamos para reencontrar.

Cresci acompanhando chegadas e partidas. Nem mesmo existiria se não fosse uma viagem. Meu bisavô veio de Portugal no final do século 19, embarcado clandestinamente no porão de um navio. Ele tinha apenas 15 anos e não se sabe se a tentativa do jovem José Rodrigues Ferreira era chegar de alguma maneira ao Chile, local onde vivia seu pai. A carona que conseguiu, só o trouxe até o Brasil, de onde nunca mais saiu.

Meu avô foi um dos seis filhos que José teve no Brasil. O batizou Carlos Rodrigues, em homenagem ao único irmão que ficou em Portugal. Não sei se foi a força do nome ou do hábito, mas Carlos também foi chamado meu pai, que herdou do avô o espírito de aventura. Como muitos de sua geração, Carlos Alberto optou pela carreira militar. Mais do que o prestígio, a sólida formação e uma aposentadoria tranqüila, via no exército a possibilidade de viagens e aventuras.

A vida reclusa da caserna, no entanto, o decepcionou. Civil novamente, resolveu correr o mundo por conta própria. A profissão, aprendida no Instituto Militar de Engenharia, acabou proporcionando as viagens que tanto queria. Conheceu o Brasil e o mundo projetando linhas de transmissão de energia.

A África foi minha primeira grande viagem. Meu pai estava lá supervisionando a construção das torres que fariam a eletricidade circular pelo Zaire (hoje República Democrática do Congo). Tinha apenas quatro anos e me lembro muito pouco, apenas do condomínio improvisado de trailers onde morávamos, dos guardas de trânsito trajando bermudas, de uma cachoeira no meio de uma plantação de aipins e de um enorme rio. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos quatro meses, o tempo das férias escolares. Meu pai cumpriu um contrato de um ano e meio.

No início da década de 80, minha mãe foi morar em Los Angeles para cursar um mestrado em lingüística na Universidade do Sul da Califórnia. Embarcava com uma bolsa de estudos e uma boa dose de coragem para enfrentar um novo desafio aos 38 anos de idade. Os filhos, mais uma vez, acompanharam a aventura de viver em outro país.

Los Angeles me impressionou bastante. Gostei da cidade e do clima. Além disso, aprendi inglês e deixei uma semente para a futura, e ainda inimaginável, visita.

Pelo destino, ou não, viagens acabaram fazendo parte da minha vida.

 

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