Um trem para a Cidade do México

“De quien és esta bicicleta?!”, perguntou o funcionário da empresa ferroviária. O cansaço havia ajudado a decidir pela primeira viagem de trem; o trecho seria Morélia-Cidade do México. Saída naquela mesma noite. Quando cheguei à estação, um funcionário mal-humorado me disse que a bicicleta deveria ser encaminhada ao express. Eu fiquei olhando para ele tentando entender o que diabos era o tal express.

Ah sim, o vagão cargueiro! Mas por nada neste mundo eu me distanciaria da bicicleta. Sem pedir permissão, coloquei-a no vagão de passageiros, no pequeno espaço formado pelo corredor que une os vagões. Acorrentei-a a um corrimão e cobri com as capas de chuva para dificultar o acesso aos alforjes.

Ia tudo bem até que, com uma hora de viagem, apareceu um funcionário querendo saber de quem era a bicicleta. Para piorar a situação, o cara estava bêbado e queria me cobrar uma taxa que eu desconfiava ser uma enrolação. Tudo indicava que sim, mas daí até desembolsar os pesos mexicanos ainda seria uma longa negociação.

Tentando manter a calma, coisa que o cobrador havia perdido há muito, comecei com meu texto de sempre: um estudante brasileiro em uma viagem econômica, etc, etc, etc.. Ele parecia ignorar minhas palavras e sempre me interrompia, dizendo: “Pero tiene que paaagaarr y pooonerrr en el exxxxpressshh!!…”, arrastando a voz por conta da embriaguez.

Ficamos neste vaivém até a chegada de outro fiscal, felizmente sóbrio. Consegui argumentar com mais objetividade, mas ele só fez endossar a posição do companheiro. Comecei a ficar irritado com aquela chateação, que direito tinha este sujeito embriagado de me cobrar o que quer que fosse? Perdendo eu também a sensatez, pedi a presença do diretor da empresa.

O segundo fiscal desistiu da infrutífera discussão e se foi; o bêbado ainda insistiu um pouco, mas percebendo que eu não ia ceder, me deixou em paz. Como é que naquela altura dos acontecimentos os caras iam guardar a bicicleta no exxxpressh? Iam meter minha grana no bolso e sumir.

O trem não tinha poltronas e sim bancos de madeira. Bancos de madeira para uma viagem de doze horas! Sem praticamente dormir, cheguei à gigantesca estação da capital pouco depois das oito da manhã de uma terça-feira.

Decidi que não iria procurar hotel, albergue, associações ou coisa que o valha. Meu destino seria a embaixada brasileira, que ficava a cerca de uma hora e meia, pedalando a partir da estação. Num dos bairros mais chiques da cidade, Lomas de Chapultepec. O palacete abrigava o cônsul e o adido cultural. Quem visse jamais imaginaria as condições econômicas em que vivem, de fato, os brasileiros. Mas parece que, na diplomacia, aparência é fundamental. Tentando não chocar tão sofisticado ambiente, troquei a camisa suada e dei uma ajeitada no cabelo.

Dentro da embaixada, senti que algo não estava indo bem. Uma senhora de semblante nordestino parecia ser quem comandava a situação. Nervosa e inquieta, andava apressadamente tentando resolver algum problema. Curioso com a movimentação, perguntei ao vizinho de fila qual o motivo de tanto reboliço. A resposta me deixou estarrecido: um avião pilotado por dois brasileiros havia sido abatido pela força aérea mexicana. A carga? Quilos de cocaína. O pai de um dos pilotos tentava liberar os corpos para serem enterrados no Brasil. Abatido e com uma expressão num misto de desgosto e espanto, ele aguardava impávido.

Isso ia demorar.

Aproximei-me do balcão de atendimento cuidadosamente e antes mesmo que pudesse abrir a boca, a mandachuva bradou:

 

– Olha, se é dinheiro que você está precisando chegou em péssima hora!

– Não, pelo menos ainda não – respondi.

– Então fala logo porque o dia está um horror! –disse confirmando com o sotaque arretado de que região brasileira era natural.

 

Minha solicitação era mais simples do que a do desafortunado pai, por isso mesmo fui colocado no final da fila. Ela mandou esperar que mais tarde resolveria meu problema.

Saí para dar uma volta no bairro, mas nada nas redondezas cativava mais a minha atenção do que o drama que se desenrolava dentro da embaixada. Almocei rapidamente e retornei para acompanhar a novela, agora com um novo e inesperado personagem: um cara de seus 35 anos estava sentado algemado entre dois policiais. Era mais um brasileiro em processo de deportação. Tinha sido pego alguns dias antes pela polícia ao tentar cruzar o México em direção aos Estados Unidos. Muita gente que não consegue o visto tenta subir pelos países da América Central, sem um controle tão rígido. Às vezes é mais fácil tirar um visto guatemalteco ou costarriquenho do que o norte-americano.

Mas no México a polícia tem um acordo com os EUA para deter, ainda no território mexicano, o avanço de possíveis imigrantes ilegais. Quando um grupo é pego, não só entram na porrada como têm seus bens confiscados. Francisco, salvadorenho que trabalhou comigo no Lulu’s Alibi, passou por essa situação humilhante. Ele e seu grupo foram pegos no meio do caminho. Chico foi um dos poucos que conseguiram escapar. Entrou conduzido por coyotes até as praias ao sul de San Diego.

O pobre infeliz preso ali na embaixada morava nos EUA há tempos, tinha ido ao Brasil para regularizar seu visto de entrada para enfim conseguir um greencard oficial. Como o processo não deu em nada, decidiu voltar sem visto. Seu filho, nascido nos Estados Unidos, e sua mulher, o aguardavam de volta em Ohio. Prestei meu apoio moral.

Tive que esperar até quase o final do expediente para ter meu caso resolvido. No final da tarde o pessoal da embaixada conseguiu um lugar para eu ficar, o Centro de Estudios Brasileiros, um órgão destinado a ministrar cursos de português, difundir a cultura brasileira, organizar eventos, exposições, recepcionar artistas, além de dispor de uma biblioteca com publicações e jornais nacionais.

Freqüentado por estudantes, o centro tinha um zelador chamado Casimiro de Abreu, um faz-tudo. Congregava atividades de zelador, telefonista e boy. Nas horas vagas, Casimiro dava aulas de percussão em escolas de música e tocava num grupo de samba. Morando aqui há muitos anos, não está nem um pouco interessado em voltar. Mineiro, é reservado e tímido. Assim me recebeu. É confortante estar em volta de tantas lembranças do Brasil.

A casa seguia o estilo faraônico das representações brasileiras. O país estava uma merda, mas no estrangeiro fingia-se que éramos gente fina. Um casarão estilo magnata da novela das oito com um largo saguão na entrada, escada em curva e um piano de cauda estacionado sobre o piso de mármore…

 

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