Um guacamole por favor!

Após a subida me deparei com outras cabines. Achei que fosse a Imigração, mas era o pedágio da estrada nova. A velha subia uma serra, a nova tinha uma placa avisando que era proibido o tráfego de bicicletas. Fui pela nova mesmo; afinal, como discutido anteriormente, estamos num veículo. Além do mais, a nova seguia junto ao mar.

Era um daqueles domingos de sol quando cheguei em Rosarito. A cidade estava no mais completo alvoroço. Crianças correndo em todas as direções, principalmente no meio da rua, churrasquinhos assando aqui e ali, bolas, sombreros, carros estacionados no meio da pista.

Sonhava há dias em comer um autêntico guacamole, especialidade mexicana feita com abacate, pimentão, sal, cebola, tomate e muita pimenta. Uma boa pedida para o almoço. Assombrosamente, tive que gastar cinco minutos explicando ao garçom do primeiro restaurante que encontrei, como se preparava um guacamole, ou pelo menos como eu achava que devia se preparar (parece que este prato é uma especialidade de outra região, algo como pedir a um gaúcho para cozinhar um vatapá).

Rosarito é um paraíso alcoólico para os jovens da Califórnia. Rapazes e moças lotam a cidade para um fim de semana cheio de tequila, rock n’roll, salsa e baseball. Com tantos atrativos, não era de se espantar os preços inflacionados. Hotéis e pousadas cobravam o mesmo preço, um cartel de dez dólares por cabeça, tronco e membros. Uni esforços com duas canadenses que também acabavam de chegar à cidade e juntos escolhemos um tal Hotel Sônia.

O quarto tinha uma cama de casal, outra de solteiro e um banheiro com chuveiro frio. As meninas almoçaram no quarto. Mesmo com minha floreada propaganda sobre os guacamoles, preferiram comer uma gororoba que elas preparavam dentro de uma garrafa termo-elétrica, um arroz com temperos sintéticos que, quem sabe, deixava com sabor de estrogonofe. Temiam a Montezuma’s Revenge (a vingança de Montezuma), apelido de uma diarréia conhecida de gringos e europeus, acostumados a uma água de melhor qualidade. Sempre que alguém passa mal com a comida diz-se que é feitiço rogado pelo imperador asteca, assassinado pelos espanhóis.

Eu confiava em meu estômago latino, capaz de agüentar pizzas e muito café durante meses. Além do que, depois de um dia de pedaladas não dava para ficar com escrúpulos na hora de comer.

Meu primeiro contato com a cocina mexicana mostrou qual seria o acompanhamento das refeições a partir daquele momento: água. O Motivo é El poderoso chili-verde, uma pimenta pra lá de malagueta, acrescentada a quase todos os pratos.

Quando a noite caiu, caíram também todas as minhas expectativas de um primeiro dia mexicano. Embalei junto com as canadenses para curtir os agitos da cidade. Inacreditável, lá estava eu sentado num bar em pleno México, ao som de dance music, cowboys de fim de semana, bebendo tequila, assistindo a uma partida do campeonato de baseball via satélite e tentando convencer um californiano de que era possível pedalar de um país a outro, tudo uma questão de tempo. Bom, nada melhor que uma tequila para brindar o primeiro dia em território mexicano. Caramba!

Pedalando a Baja

Acordei cedo e saí deixando um bilhete de despedida preso no espelho. Peguei a estrada velha, com uma boa serra logo no começo e um sol de rachar na cabeça. Respiração, suor escorrendo, nuca, rosto, pernas. Cada metro parecia um quilômetro, muitas vezes empurrando a bicicleta, que parecia pesar ainda mais. Ah! Mas havia descidas também, e como eram incríveis: cinqüenta quilômetros por hora marcava o pequeno velocímetro digital preso ao guidom.

Estava na porta do deserto da Baja California. A paisagem começava a mudar, os tons eram de primavera, o tráfego estava bem menor. Pastagens e campos floridos pelas margens da rodovia e enormes cactos brotando em toda parte. Quando a serra acalmou um pouco, dei uma parada numa lanchonete para refrescar e tomar algo que não a água morna das garrafas presas à bicicleta. Encontrei o dono se dedicando meticulosamente ao preparo de umas lingüicinhas fritas. Foi um pouco difícil explicar-lhe por que eu não comia carne, na sua cabeça algo impossível de acontecer. De qualquer maneira, aquelas lingüiças não me pareciam nada saudáveis.

O cara, um pouco contrariado, terminou comendo todas sozinho, a não ser pela última, oferecida a um viajante recém chegado também em busca de um refresco naquele dia calorento. Foi este camarada que, antes de sair, avisou que meu companheiro estava apenas a alguns quilômetros atrás, breve estaria ali.

Companheiro? Que companheiro?

Segui com aquilo na cabeça, quem será que vinha atrás? Certamente outro ciclista solitário. Desde Los Angeles que venho cruzando com cicloturistas, mas todos no sentido oposto. Pedalei mais devagar para ver se o cara me alcançava. Uma companhia para os longos dias de estrada até que não caía mal. O destino era Enseñada.

E foi um pouco antes da entrada da cidade que conheci Eugene, um coroa de seus 45 anos, saído de San Diego naquela manhã e se dirigindo para Cabo de San Lucas, um pouco depois de La Paz, onde eu ficava para embarcar no ferry-boat para Mazatlán, no México continental. Eugene, ou Gene como preferia, trabalhava numa fábrica de produtos químicos no norte dos Estados Unidos, fez algumas viagens mas nada tão agressivo como aqueles 2000 km até San Lucas. Logo nos tornamos companheiros eventuais de viagem e terminamos por dividir um quarto de hotel…

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