O cidadão acidental: um Greencard pra mim por favor!

Em sua última fase de construção, preparava-se para inaugurar perto de casa uma nova loja de uma mania mundial: pizza. Uma faixa anunciava a contratação de novos motoristas para entregas em domicílio. Adeli tinha acabado de comprar um carro novo, deixando um velho Honda Civic Station Wagon, estilo de uma Parati, parado na garagem.

Fui checar para ver se, um ilegal como eu, teria alguma chance naquela seleção. O gerente, um mexicano de seus 25 anos, informou que era só trazer os documentos do carro e o greencard que o emprego era meu. Só que o seguro do carro, que em Los Angeles é obrigatório, estava vencido e tampouco era em meu nome; isso custaria uma grana. Outro problema era que pela primeira vez estavam me pedindo papéis para trabalhar, no Brazil Grill não havia tido este problema já que estávamos todos em família, mas numa grande cadeia de pizzarias?

Pensando melhor, talvez não tivesse tantos problemas assim. Em Los Angeles, ocorre um fenômeno sem igual no mundo (não conheço o mundo todo, mas deve ser sem igual). Por motivos únicos, nos últimos cinqüenta anos esta cidade tem atraído refugiados, sonhadores, especuladores, durangos, estudantes, desempregados e aventureiros em geral. Um indicativo desta realidade são os inúmeros restaurantes típicos espalhados pela cidade. Etiopenhos, ucranianos, panamenhos, noruegueses, empanadas argentinas, massas italianas, tortillas mexicanas, refrigerantes de guaraná brasileiros e qualquer gostosura que você possa imaginar, um paraíso gourmet.

Estes mesmos refugiados, sonhadores, especuladores, durangos, estudantes, desempregados e aventureiros em geral estão naturalmente trabalhando para poder sobreviver e ganhar dinheiro para um dia, quem sabe, voltar para casa. A maioria destes camaradas está em situação irregular e seu pesadelo chama-se Migra, como é “carinhosamente” chamada a Agência de Imigração.

Na verdade, todos têm os papéis, duas carteirinhas: o greencard e o social security (seguridade social: que permite ao indivíduo trabalhar, ser atendido em hospitais, receber aposentadoria, entre outros benefícios) com número, foto e carimbo, mas tudo falso. Não são uma obra de arte, aliás são bem toscos, mas todos sabem da falcatrua. Quem manda é a lei do mercado: pela ilegal se paga menos, ilegal não reclama.

O comércio destes documentos é descaradamente fácil e feito à luz do dia, no meio da rua, em lugares conhecidos (inclusive pela Migra). O serviço, que custa cerca de 15 dólares, é isento de impostos e totalmente administrado por indivíduos igualmente ilegais. O local de contato é uma grande praça perto do consulado mexicano; é só ficar parado na esquina como quem não quer nada que logo alguém te aborda, dá até briga por cliente. O esquema é tão grande que gera empregos secundários; ao redor da praça proliferam lojas especializadas em fotos para passaportes e greencards. O detalhe é que a foto para o greencard falso é um pouco menor que a do original, por isso os fotógrafos sempre perguntam: “Do you want big or small?”. “Eu gostaria da small, por favor”. Foi assim que me tornei mais um cidadão acidental da grande e democrática nação dos Estados Unidos da América do Norte, Terra da Oportunidade.

Estas migrações, muitas vezes legalizadas ou legalizáveis, ocorrem ostensivamente desde o final da Segunda Guerra, ou, se você refletir, desde que este continente foi achado. A real é que o feitiço virou contra o feiticeiro. Os EUA, grande vencedor da guerra, pregaram pelos quatro cantos a retórica da liberdade individual (e do capital também). Exaltaram pelo mundo afora os ideais e o estilo de vida de sua gente. De tanto propagandear a vida boa e feliz, com geladeira cheia e carro novo, de quão incrível era a liberdade de escolha, de tanto isso e aquilo, que naturalmente todos começaram a pensar: eu também quero viver neste paraíso!

Fizeram suas apostas. Vieram os europeus, fugidos da guerra, asiáticos e latino-americanos, fugidos das ditaduras e economias destruídas. No começo, era bom para os EUA, legitimava a liberdade e dava força ao discurso democrático contra os comunistas. Com o passar dos anos, as cidades foram inchando e os problemas aparecendo. O mercado de trabalho começou a diminuir, crimes envolvendo imigrantes ilegais, roubos e uma crescente tensão étnica.

Mas por que Los Angeles, acima de qualquer outra cidade, recebeu a maior quantidade de imigrantes? O ouro, as luzes da ribalta, o calor do sol? A proximidade geográfica com a América Latina? Talvez tudo isso e mais um pouco. O fato é que a colônia de língua hispânica é tão grande que o espanhol é oficialmente o segundo idioma no sul da Califórnia. Hoje, até as repartições públicas dispõem de formulários em espanhol, e também em russo, italiano, chinês, etc. Outro bom indicador são as competições esportivas, cheque os nomes nas camisas dos jogadores: Edward’s, Powell’s e Stuart’s dividem o mesmo espaço com os Hernandez’s, Trompovsky’s, Woo’s e Lambert’s.

Chegamos ao cerne da questão: estes imigrantes agora fazem parte da força trabalhadora, e esta força é bastante literal. Peões de obra, garçons, lava-pratos, motoristas de táxi, atendentes de supermercado, ou seja, a infra-estrutura das grandes cidades concentra-se hoje nas mãos dos imigrados. Los Angeles não vive mais sem seus ilegais e muitos norte-americanos não querem mais se sujeitar ao trabalho pesado. Diz-se por aqui que se todos os ilegais forem expulsos, a cidade entraria em colapso.

Por outro lado, esta miscigenação, esta mistura entre culturas deixa a cidade com um charme, um encantamento que se precisa tempo para perceber e entender.

A esta altura, grande parte dos meus problemas estava resolvida, principalmente porque decidi abrir o jogo com Tony, o gerente da pizzaria. Para ele não importava a procedência dos documentos contanto que fossem bem feitos, afinal o que ele queria era apenas uma boa desculpa em caso de batida da Migra: “poxa também fui enganado!”, diria. Mas tem mais um motivo, Tony também um dia foi um ilegal, se livrou da Migra comprando uma carta de apresentação de um fazendeiro norte-americano. Nela o agricultor afirmava que o jovem mexicano havia trabalhado em sua lavoura durante um longo período, o que garantia sua legalização em um dos processos de anistia promovidos periodicamente.

Assim se ganha a vida em Los Angeles, que guarda o nome do tempo em que fazia parte do território mexicano. Faltava dar um jeito no seguro do carro, nada que um corretor líquido e uma boa fotocopiadora não resolvessem.

Agora eu entregava pizzas pelas ruas do bairro. Os dias de espera ficaram rapidamente para trás. Era divertido: devíamos ser uns quinze funcionários, treze ilegais, sendo que meia dúzia mal falava inglês (metade da clientela idem). Saía de um clima de expectativa, de partida, para me tornar um morador. Faria novos amigos, conheceria novas ruas, outros lugares. Aquela cidade ia pouco a pouco se tornando amiga, e as raízes mais profundas. Gorjetas e salários se acumulando, precisava cobrir o prejuízo. Agora queria uma boa bicicleta e equipamentos de qualidade, não importava o tempo que isso levasse. A saudade de casa é que se virasse.

Meu turno na pizzaria começava normalmente depois das três da tarde. Iniciava lavando as fôrmas que se acumulavam na pia industrial; aliás tudo era em escala industrial: os potes de extrato de tomate, o pacote de temperos, os sacos de farinha, o forno, enfim, tudo industrialmente pré-fabricado. Outra tarefa era a dobradura. Passávamos uma hora dobrando folhas de papelão, juntando abas até se tornarem caixas de pizza. Em seguida, se não tivesse nenhum pedido no computador, passávamos para uma das seguintes atividades: varrer o chão, preparar os molhos, fazer a massa, abastecer a mesa de condimentos, etc.

Ali nada era produzido, apenas reproduzíamos o que os manuais e os cartazes nas paredes indicavam. Existia medida para tudo. Para fazer a massa era necessária uma medida de água para um saco de 5kg de farinha de trigo, jogava-se tudo num grande misturador, acertando a máquina para o tempo indicado no manual. O molho mais simples ainda: num enorme balde, despejava-se duas ou três latas de extrato de tomate, dois ou três pacotes de temperos e duas ou três medidas de água. Batia-se duas ou três vezes, levava-se dois ou três respingos nas padronizadas camisas verdes e pronto. No mais era abrir os sacos plásticos com todos os sabores já cortados e coloridos artificialmente e espalhar sobre os círculos de massa. Existia um manual para a preparação que dizia que para cada tipo de pizza eram necessárias tantas gramas de mozarela, tantas de cebola e tantas de carne moída, mas ninguém prestava atenção nisso. Imagina pesar trinta gramas disso, vinte daquilo; as pizzas iriam levar uma hora para ficar prontas. Com a experiência, o que conduzia a galera era mesmo o instinto e a prática, e também aquela “intuição artística” latino-americana.

À medida que a noite avançava, as luzes dos telefones começavam a piscar em progressão geométrica. Nós também atendíamos os telefones, embora não tivéssemos sido contratados para isso. A partir daí o tempo voava; entrávamos e saíamos enlouquecidamente, os pedidos não paravam de chegar. Depois de um tempo sabíamos de cor todas as esquinas do bairro, os endereços que davam as melhores gorjetas (o que gerava uma pequena disputa). O computador controlava o fluxo de saída dos motoristas, embora soubéssemos como burlá-lo.

O bairro era dividido em áreas. Logo perto estava a USC, a imensa universidade onde minha mãe havia estudado e um enclave de prosperidade naquela área degradada. Em volta dela repúblicas de estudantes, vorazes comedores de pizzas. Ao sul, o bairro ia se tornando um pouco mais barra pesada, era sempre tenso quando um endereço muito lá dentro aparecia na tela, contávamos os números para ver quem seria o premiado da noite.

Todo mundo acabava se metendo em pequenas enrascadas: eu mesmo, acostumado com o bairro e com pressa de seguir logo para o próximo pedido (quanto mais saídas, mais gorjetas), resolvi, uma vez, deixar o carro ligado enquanto fazia uma entrega. No momento em que apertei o interfone, ouvi a porta do carro batendo e alguém ao volante sair cantando os pneus. Neste mesmo segundo, uma voz feminina surgiu no alto-falante: “Yes?” Desesperado, eu gritava “Call the police, call the police! Chama a polícia, meu carro está sendo roubado!!”

A jovem, apenas querendo matar a fome, tentava entender o que estava acontecendo. “What? Oquê? Whaaat!!!”. Enquanto ela respondia de lá, eu, atônito, observava meu carro escapando, escapando, até que parou. Ficou parado no meio do cruzamento. Sem entender absolutamente nada, e com a mocinha aos berros no interfone, vi o carro vagarosamente regressar ao ponto de partida. De dentro, sai um garoto de não mais que 18 anos, rindo adoidado. Eu, num misto de puto da vida e feliz, não sabia se pulava no pescoço do safado ou se agradecia por ser apenas uma brincadeira. Como explicar agora para a cliente o que havia acontecido?

Os entregadores de pizza são entidades, até os policias aliviam as barbeiragens quando percebem que dentro do carro estão pizzas que precisam chegar em meia hora ou seu dinheiro de volta. Éramos uma grande família, a latinidade nos unia. Entregar pizzas era atividade culturalmente enriquecedora, um aprendizado de como lidar com as pessoas, com as expectativas, um estudo dos diversos hábitos e temperamentos.

Podíamos observar que tipo de decoração aquela pessoa preferia, costumes, que canal de televisão estava assistindo, os ídolos presos nas paredes, presenciávamos brigas e cenas de amor, nos metíamos em situações difíceis: ruas escuras, cachorros nervosos, tipos suspeitos, endereços trocados, trotes, enfim, um estudo antropológico, se me permitem o tom acadêmico. O ofício do entregador regulava com o do garçom; ganhávamos um salário mínimo de U$ 4,25 por hora, mais as gorjetas. O salário era mínimo porque os patrões sabiam que as gorjetas o complementavam e acima disso, sabia que éramos todos ilegais…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s