Sexta-feira, 10 abril, 1992

A véspera da partida foi bastante movimentada, como sempre os detalhes finais sobraram para os últimos dias. Quando vi a quantidade de equipamentos espalhados pela sala, me toquei do quanto fui influenciado por um vício cultural norte-americano: o consumismo. Tentava encontrar uma maneira de me livrar dos supérfluos, mas inexplicavelmente não conseguia; algumas bugigangas tinham assumido um caráter imprescindível.

A bicicleta que escolhi é uma touring bike, que traduzido pode ficar como bicicleta de turismo, ou de viagem, como preferir. A diferença é que ela combina características de uma bicicleta de corrida com equipamentos de uma bicicleta montanheira, resumindo: rapidez e robustez. Com 21 marchas, freios mais fortes, quadro mais fino e guidons curvos com o câmbio nas pontas, facilitando a passagem das marchas, já que não se precisa tirar as mãos do guidom para transferi-las.

Fixado nas rodas traseira e dianteira, bagageiros permitem a fixação de 4 mochilas. As da frente são menores e mais próximas do chão, para não desestabilizar a bicicleta, e as de trás tem maior capacidade de carga.

Dentro delas eu tive que organizar as poucas roupas que estou levando, uma panela, uma frigideira, quatro garrafas d’água, uma barraca de camping, um rádio-tocafita, cassetes, peças sobressalentes, duas câmaras de ar, material de reparo, uma câmera fotográfica, três lentes, dezenas de filmes, e ainda deixar espaço para o lanche e as frutas. Estava certo de que ainda teria que carregar a bicicleta nas costas muitas vezes, portanto, na medida da necessidade, os desnecessários iriam ser descartados ao longo da viagem. Ah sim, os mapas! Na verdade tenho apenas quatro mapas, um do México, outro da Guatemala, um terceiro da América Central e um último do Brasil. As estradas não são minha maior preocupação. Fora uma ou outra opção dentro do México, basicamente só tenho uma rota a seguir: a Rodovia Panamericana. Começo pela Transpeninsular, que corta toda a Baja California. Depois é só selecionar as cidades principais que levam à Cidade do México, daí até San Cristóbal de Las Casas. Na América Central seguiria até o Canal do Panamá, sempre buscando as capitais. Na América do Sul, vou seguir pela Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai e, finalmente, Brasil. Quase sempre na Panamericana.

A despedida de Adeli, se é que posso chamar aquele momento de despedida, foi rápida. Era como se estivesse indo passar um fim de semana fora. Adeli, nervosíssima com uma prova que faria naquela manhã (desculpa que me deu para justificar as mãos suadas e trêmulas) praticamente me expulsava, por pouco nem trocaríamos um abraço. Andrés, vizinho da frente, argentino de Buenos Aires, apareceu para um alô. Buster, cachorro vira-latas morador do quintal colado ao nosso, latia loucamente, correndo em círculos; uma amizade havia crescido entre nós, principalmente no período da espera.

O dia estava lindo, bom presságio. Comecei a pedalar por volta das sete da manhã, desci pela Normandie, uma longa e larga avenida. As avenidas em Los Angeles são quilométricas, pode-se muito bem morar no número 30, 524 ou até 60395. Uma mega cidade, milhões de habitantes. A vista do alto é impressionante, principalmente para quem vem de uma cidade como o Rio onde o alcance da visão acaba no mar ou nas montanhas.

Los Angeles é plana e espalhada por conta dos constantes terremotos, salvo o centro da cidade. Lá estão os arranha-céus de quarenta, cinqüenta andares, façanha da engenharia. As casas e prédios de apartamentos, que não passam de três andares, são todos de madeira, solução para suportar o tremor: madeira cede, concreto trinca.

Vivenciar um terremoto é uma experiência interessante: o balanço vem em ondas que mudam a percepção da realidade. Manter a calma e encarar um abalo sísmico como um fenômeno natural, assim como uma cachoeira, um temporal de verão, as ondas quebrando nas pedras durante a ressaca, ajuda a entender sobre a Existência, o quanto somos pequenos, o quão poderosa é a natureza. Um terremoto deixa claro que o planeta é um organismo vivo, e que assim deve ser respeitado. Peguei um terremoto logo no terceiro mês. Foi bem cedo, não passava das sete da manhã. De repente comecei a sentir uma estranheza, a casa rangia suavemente. Abri os olhos e vi que o lustre no teto oscilava em círculos e a folhagem das plantas dançava junto com a casa. Durou o tempo de um suspiro. Adeli apareceu logo depois e me perguntou: “Sentiu?” Balancei a cabeça. Disse ela que meus olhos estavam esbugalhados. Mas não por medo, achei a sensação maravilhosa, emocionante. Uma novidade.

E já que estamos falando em sensações, logo quando comecei a pedalar passei a experimentar várias: medo, liberdade, alegria e ansiedade com os meses à frente. Olhei para baixo e vi o que agora sou: duas pernas, quatro mochilas e duas rodas, com milhares de quilômetros a cumprir.

Demorei uma hora e meia até chegar à primeira parada, a oficina do Paulo, a South Coast Motors – foreign car repair. Depois daquela pelada ainda nos encontramos outras vezes, ficamos parceiros e passeávamos de bicicleta de vez em quando. O papo com Paulo foi breve, apenas um respiro antes do impulso final que tornaria irreversível aquela viagem. Senti que depois dali não tinha mais volta. Se quisesse desistir, ali era minha última chance.

Retornei à avenida e logo alcancei os bairros praianos da ensolarada Califórnia. O referencial dos Estados Unidos para sol, mar, para algo tropical é a Flórida e a Califórnia. A vestimenta, no entanto, parece querer provar que estamos mesmo em um país do norte. Os biquínis daqui dariam pano para maiôs comportados nas garotas de Ipanema.

Distraído com as análises sócio-anatômicas, não percebi quando um ciclista emparelhou ao meu lado, curioso com a parafernália. Queria saber o destino, o motivo, o tempo e a vida. Era um garotão de seus trinta e poucos anos, dois filhos, alguns casamentos, atualmente com um brotinho, segundo ele, “acidentalmente” esperando o terceiro filho. O papo foi ficando realmente profundo e acabou descambando para vida e morte, ideais, religião e, inevitavelmente, Deus! Nossa e era só o primeiro dia.

Nos separamos quando a ciclovia se distanciou da praia, segui pedalando até chegar na cidade de San Clemente. Um Albergue da Juventude seria a primeira pousada. O albergue estava tranqüilo, poucos hóspedes. Gostei do estilo faça você mesmo, preparei um macarrão instantâneo, abri uma lata de milho, outra de feijão. Depois disso nada melhor do que cama, na parte inferior do beliche número vinte, dormitório coletivo masculino…

 

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