Rodovia BR-101

Essa viagem nunca teve um plano, uma programação. Mas sempre teve uma aproximação final planejada, com uma cidade de entrada, um ponto de parada para um último descanso e um dia de chegada. A cidade sempre foi Chuí, não me pergunte por que, é uma daquelas decisões que não têm explicação. Simplesmente coloquei na cabeça que queria entrar pela pontinha sul do Brasil. A parada é a cidade de Parati, último descanso antes do salto final para casa. E o dia de chegada é sábado. Qualquer sábado, não me importa o dia ou o mês, mas tem que ser uma manhã de sábado. Sei lá, talvez por ser um dia mais calmo, vou encontrar todos em casa, tomando café, o que será ótimo para uma surpresa. E eu adoro surpresas.

Chuí tem um irmã uruguaia, é a Chuy. Chuí e Chuy se encostam, suas ruas se misturam, uma cidade com dois países dentro. É assim que se cruza a fronteira nesse pedaço de Brasil, pedalando entre as ruas de uma cidade.

E foi assim, sem nem me dar conta, que quando vi, lá vinha o Brasil, do outro lado da larga avenida empoeirada, sem anúncio ou placas. De surpresa para mim. Só se poderia saber que ali se encontram Brasil e Uruguai pela várias casas de câmbio espremidas, parede a parede; umas com y, outras com i.

Brasil; há quanto tempo eu não escutava o português falado no meio da rua. Que saudade do ordinário! Que dia extraordinário! Deslizei para o meu país, totalmente anônimo, sem burocracia ou carimbos. Estava de volta à minha turma, ao meu povo. Não precisava mais enrolar a língua. Depois de 16 meses fora de casa eu voltava no dia da independência: sete de setembro de 1992, uma segunda-feira.

A última troca dos cheques de viagem denunciou que o Brasil neo-liberal de Collor de Mello realmente havia fracassado. O dinheiro havia mudado de nome, de novo: 50 mil, 100 mil cruzados novos. As notas ficaram menores. A inflação, no entanto, continuava enorme.

Pelo menos a tempero continuava o mesmo! Foi num posto de gasolina – e não há postos de gasolina como os brasileiros – que voltei a provar a culinária nacional. O jantar estava acabando de ficar pronto. Um feijãozinho preto bem temperado no alho. Sensacional! Na televisão uma nova novela com os mesmos personagens e a mesma história. Cláudia Raia se debulhava em prantos porque José Mayer não a amava mais. Acho que não perdi muita coisa.

Na hora da sobremesa resolvi fazer uma festa: dois Sonhos de Valsa, um saquinho de Delicado, outro de Jujubas. Tanto a dona do restaurante, como eu mesmo, ficamos impressionados com tamanho apetite.

Dormi por ali mesmo, no banheiro nos fundos do posto. O frentista me disse que ninguém usava a não ser os funcionários. O local estava limpo. Durante a noite alguém abriu a porta esbarrando no meu pé. Se assustou comigo estendido no chão e desistiu da idéia. Bêbado de sono, acabei cumprimentando o cara em espanhol, “buenas noches”, resmunguei. Depois de tantos meses falando espanhol, ainda estava ajustando os neurônios para o português.

O café da manhã deu continuidade à farra dos sabores: nada como uma média e um pão francês com bastante manteiga. Outros dois camaradas também desfrutavam daquele cafezinho. Estavam em um Kombi voltando para Guaíba, cidade vizinha de Porto Alegre. Uma carona perfeita! Eram dois gaúchos típicos, brincalhões e gozadores. Um deles se apresentava como agricultor e poeta erótico. Durante a viagem, ele contou vários de seus sonetos libidinosos. Em um deles, o ginete trovador enumerava os animais com os quais já havia fornicado. Listou cabras, galinhas, porquinhas e vaquinhas. Apenas um jamais poderia encarar: “o marimbondo!”, dizia enchendo a boca com a resposta. E caía sozinho na maior gargalhada. Barbaridade, tchê!

Havia também muitos bichos na estrada, infelizmente mortos. Capivaras espalhadas pelo acostamento, vítimas dos atropelamentos daquela imensa reta que corta a Reserva Ecológica do Banhado do Taim. O papo não demorou para chegar em comida, ou melhor, em churrasco. Paramos em um rodízio. Salão enorme, vários garçons circulando, colocando freneticamente pratos e mais pratos de acompanhamentos, e você com a clara sensação de estar sendo empanturrado.

Me separei dos gaúchos às quatro e meia da tarde. Tinha comigo o telefone de Milton Bervian, irmão de Pedro, do restaurante Las Antorchas, em Antígua Guatemala. Liguei e contei a história. Um pouco desconfiado ele marcou comigo às nove da noite. De Guaíba a Porto Alegre faltavam 30 quilômetros a pedalar.

Milton era um cara calmo e sincero. Contei-lhe detalhes da vida de seu irmão na América Central, embora ele não tenha se mostrado muito interessado. Pareceu-me que os dois tinham perdido contato, talvez algum desentendimento antigo. Combinei que ficaria apenas duas noites.

 

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