Os Somoza

Logo estava diante de uma situação de fronteira novamente. Por algum destes motivos inexplicáveis, os fiscais nicaragüenses determinaram que a minha bicicleta era um veículo, e veículo tinha que preencher a papelada específica e pagar as taxas específicas. Desta vez não adiantaram nada meus apelos e considerações; devia ser praga do fiscal da fronteira norte-americana.

A burocracia é realmente uma coisa do outro mundo. Vejam vocês que tive que esperar uma hora exata até que um dos escritórios da fiscalização voltasse a funcionar. Era o responsável por um dos carimbos de que precisava para seguir viagem. Carimbos, papéis, taxas, papéis, carimbos, guichês, papéis, taxas… O dinheiro agora se chamava Córdoba. Havia começado com os dólares dos Estados Unidos, depois passaras para os pesos mexicanos, em seguida os quetzales da Guatemala, os colones de El Salvador, lempiras hondurenhas e agora córdobas, homenagem a algum conquistador espanhol.

Manágua, capital da República de Nicarágua. Lá vivem alguns amigos de Benedito, ou Dito como preferia, jovem teólogo da PUC. Lecionava a cadeira “O Homem e o Fenômeno Religioso”, primeira matéria das três religiosas obrigatórias exigidas pela Católica do Rio. Dito havia sido uma figura importante na minha formação, indiretamente foi quem me aproximou do universo espiritual, dos recônditos da alma, como dizia. Foi através de sua matéria que pude aprofundar meu interesse pela religiosidade. O título definia a questão: entender os rituais religiosos humanos.

Dito era um professor de fato, dos que ensinam mais com a pergunta do que com a resposta, dos que fazem pensar. Em sua primeira aula entrou calado carregando uma maletinha, colocou-a sobre a mesa e escreveu no quadro sem dar maiores explicações: “Então Alice perguntou ao gato: Para onde leva este caminho? Foi que respondeu o gato: Depende de onde você quer chegar.”

Anos depois, Dito resolveu ir conhecer de perto a América Latina, o trabalho e as lutas do povo campesino. Encontrou Matagalpa, um povoado cem quilômetros de Manágua, cidade-chave do movimento revolucionário guerrilheiro que lutou e tirou do poder os Somoza. Antes de Dito partir, fiz-lhe uma brincadeira. Disse que qualquer dia aparecia para visitá-lo. A brincadeira acabou se tornando realidade, só que o destino não quis o encontro. Seu pai adoeceu e ele teve que voltar antes do tempo.

Manágua é cheia de cicatrizes, tanto políticas quanto geológicas. Em 1972 um grande terremoto atingiu-a em cheio, não sobrou muita coisa para contar a história. A reconstrução ainda está em processo. Politicamente a história não difere de suas irmãs latino-americanas. Hoje, o país começa a respirar ares mais justos, mas nem sempre foi assim.

Em 1934, o então chefe da guarda nacional, Anastácio Somoza, depois de arquitetar o assassinato e executar o líder oposicionista Augusto Sandino, tomou a presidência para o início de um reinado de quase três décadas. Durante este período, Somoza roubou grande parte da riqueza do país, assim como dos meios de produção. Era dono de quase tudo, portos, fábricas, plantações. Enriqueceu à custa de um povo oprimido e da disponibilização das matérias-primas para a exploração de multinacionais.

Assassinado em 56, teve seu reinado continuado nas mãos de seus dois filhos. Influenciada pelo personagem mítico: Sandino, um nacionalista inspirado na revolução mexicana, que lutou nas décadas de 20 e 30 contra o imperialismo norte-americano, e sem chances de conseguir mudanças através das vias democráticas, uma parte da juventude começou clandestinamente a se organizar e montar a Frente Sandinista de Libertação Nacional.

Anos de luta e muitas mortes depois, os sandinistas, como ficaram conhecidos, conseguiram tomar o poder. Mas não conseguiram melhorar a situação. A herança deixada pelos Somoza foi a de um país dilacerado, uma taxa de analfabetismo colossal e a miséria generalizada. Mesmo assim, eles reverteram alguns quadros e promoveram a reforma agrária.

Talvez tivessem conseguido alcançar outras benfeitorias não fossem os imensos gastos na guerra contra os EUA durante a gestão Reagan. Eram os Contras, mercenários financiados por Washington para derrubar a FSLN. A batalha consumiu os recursos do país, mas foi vencida pelos sandinistas. Derrotados, os EUA impuseram um embargo comercial que terminou de enfraquecer a economia. As recordações desta época conturbada ainda povoam a cidade com marcas de bala, casas destruídas e pichações com palavras de ordem.

Guiado pela torre da catedral, cheguei ao centro da cidade, ou o que um dia foi o centro da cidade. Estupefato, me deparei com a carcaça de uma catedral. Restavam apenas as paredes e o portão de ferro, fechado por uma grossa corrente. Lá dentro o mato crescia entre bancos e imagens esquecidas. Pássaros voavam na nave central, iluminada pela luz natural de um teto desabado. Um cenário que caberia bem em um filme de catástrofe nuclear.

Em frente à igreja uma enorme praça se espalha entre a antiga sede do governo e as margens do lago Nicarágua, abandonada demais para uma quarta-feira. Papéis voavam; presos à fachada do ex-palácio, dois grandes painéis relembravam Sandino e Carlos Fonseca, um dos ideólogos do sandinismo. Do lado, ficava o estacionamento de carros oficiais. A noite vinha caindo e eu ainda não tinha encontrado sequer a rua onde viviam alguns amigos de Dito.

O vigia do estacionamento deixou que eu dormisse por ali. Saí em busca de alimentos e de comunicação, não encontrei nem um nem outro. Nenhuma lanchonete merecia meu estômago e na telefônica me informaram o que eu desconfiava: nada de ligações a cobrar, ou, como se diz por aqui, ligaciones con cobro revertido. Na esquina, um ambulante vendia bananas fritas e refrigerantes, meu jantar em Manágua.

Cruzando as linhas do tempo

Falando em banana, sua combinação com pão gera uma alquimia deliciosa. O adocicado molhado da fruta se mistura à massa salgada do cereal. Básico. É um dos meus principais combustíveis. Duas ou três vezes por semana, reabasteço meu estoque; é um hábito e uma distração. Na saída de Manágua, parei em algo mais do que uma padaria: uma fábrica de pães, que produzia toda espécie de guloseima trigal para as padarias locais. Máquinas de grande porte despejavam séries de enroladinhos, pães doces e bisnagas. Dizem que é a banana é fruta dos ciclistas. Além de saborosa, é fácil de descascar, cheia de proteínas e carboidratos.

Até eu desistir de pedalar naquele dia, foram 70 km. Com duas breves caronas cheguei até a fronteira da Costa Rica; eram 17h45, horário de encerramento do expediente. Olha, eu acho esse negócio de fechar fronteira muito esquisito; passagem internacional não devia fechar ao entardecer. Como é que pode interromper o tráfego entre os países?! Que fosse até as dez da noite, pelo menos.

A aduana costarriquenha, diferente de tudo que tinha visto até ali, não estava logo depois, mas sim distante 4 km. Uma estradinha ligava os dois postos ficais. Os derradeiros raios de sol varavam na horizontal. Pedalava sozinho com uma sensação agradável de quietude, um sabor de objetivo alcançado, sentimentos que acalmavam o coração.

A aduana estava fechada há mais de uma hora, a Nicarágua era o único país da América Central sob horário de verão. Até ali tinha avançado três horas cruzando as linhas do tempo. Quando cheguei ao meio da Baja Califórnia, ou seja, quando mudei da Baja Califórnia para a Baja Califórnia Sul, ganhei uma hora me transferindo do horário do Pacífico para o horário das montanhas.

Dias depois, a caminho de Guadalajara, logo depois de Ixtlan (onde fiquei com os seminaristas), pulei outra entrando no horário da região central. E quando cheguei a América Central, avancei mais uma hora e assim me manti até a Nicarágua, que adotou o horário de verão; o que deixava a Costa Rica uma hora adiante.

Outra variante que anda saltando de lá pra cá são as estações do ano. Deixei a Califórnia no início da primavera, mas por aqui o outono vai terminando prestes a dar lugar ao inverno. De qualquer maneira o sol tem brilhado todos os dias, por vezes brilhado até demais. Inverno, primavera ou verão não fazem diferença nos trópicos. Como dizia uma antiga professora de português que tive no colégio, para os tropicais só existem duas estações: deu praia ou não deu praia.

Não só a costa é rica mas também o país, pelo menos se comparado à média latino-americana. Acima de tudo, a Costa Rica é um país estável. Analfabetismo, miséria, desemprego, nossos velhos conhecidos, quase não existem por aqui. Fácil de entender, já que os sucessivos governos costarriquenhos investiram em educação. Não tem exército, apenas uma guarda fronteiriça. Sem uma forte aristocracia e povoada de pequenas propriedades, a Costa Rica é um país relativamente democrático. Relativamente por que aparecem nas eleições as mesmas forças políticas das elites.

As últimas pessoas na aduana eram os funcionários da lanchonete que terminavam a limpeza antes de iniciar uma pelada. O gerente já tinha fechado o caixa, por isso não pôde me vender nem uma bala, mas consegui que trocasse uns cheques pela moeda local: colones, homônimo ao salvadorenho.

A Costa Rica está sentimentalmente mais próxima do Brasil. Talvez por sua condição econômica, é o único país centro-americano com vôos diretos para o Brasil e com ligações a cobrar. Depois de dias sem contato, poderia falar novamente com a família e com os amigos. São detalhes pequenos, mas fazem sentido para quem está na estrada há tanto tempo. Na minha casa estão todos se preparando para o casamento de minha irmã, que acontece no final do mês que vem. Minha mãe está no Brasil ajudando nos detalhes, não poderei comparecer em corpo presente, mas no dia 31 de julho estarei lá espiritualmente…

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