Os Otavalenhos

O dinheiro do Equador é o sucre. A troca de moedas aconteceu em Rumichaca, primeira cidade equatoriana após a fronteira, onde almocei. Só fui voltar a pedalar depois de uma boa sesta já quase no final da tarde. O sol logo se pôs e eu acabei não conseguindo ir muito longe. Da estrada avistei um pequeno colégio público rural, onde uma professora dava aulas num supletivo para adolescentes. Descobri a cozinha desativada e razoavelmente limpa, perfeito para passar a noite. Os garotos perceberam a minha chegada e não deixaram a professora em paz enquanto ela não veio me convidar para conversar com eles. Na verdade, não havia naquele dia uma aula, e sim uma reunião para decidir qual seria o passeio do feriado que se aproximava. A proposta da professora era a de uma visita a uma cidade histórica. A outra, aclamada no momento da votação, era a visita a um parque aquático com muitos tobogãs, escorregas e bagunça. A professora até que tentou argumentar, falou sobre a questão histórica, mas foi vencida pela energia adolescente. Depois foi minha vez. Contei um pouco sobre a viagem e sobre o povo brasileiro.

Tenho sentido uma presença mais forte de viajantes europeus, principalmente mochileiros, aqui na América do Sul. Ibarra, cidade logo a minha frente, é onde o Gringo Trail reaparece. Na América do Sul temos as cidades de Ibarra, Otavalo, Quito e Cuenca, no Equador. Lima, Arequipa, Cuzco, Machu Pichu, Puno e Nazca, no Peru. Copacabana, La Paz, Cochabamba, Potosi e Sucre, na Bolívia, entre outras. Todas fazendo parte do Trail. O cone sul do Hemisfério, incluindo o Brasil, não está necessariamente incluído na rota por sua monumental extensão. Na maioria das vezes, uma viagem é inteiramente dedicada ao nosso país. É claro que esta rota não é oficial nem obrigatória. Ela foi se formando espontaneamente.

Ibarra é a entrada da América do Sul para quem vem do norte. Colômbia tem seus atrativos, mas não é popular entre os viajantes. A instável situação política faz com que a galera pule direto ao Equador, um país rico em sua diversidade cultural, na preservação de uma série de costumes nativos e na bela geografia. Some-se aí as Ilhas Galápagos, um santuário ecológico e antropológico, um lugar único, habitado por espécies que em grande parte só existem ali. Por ter preservado intactas suas características ancestrais, o arquipélago fascinou Darwin em suas teorias evolutivas. Foi a partir de Galápagos que o antropólogo tirou as conclusões e chocou o mundo ao afirmar que o homem descendia de outras espécies, e não era uma criação diretamente de Deus, como queria a igreja.

Uma longa curva sobe para fora de Ibarra me levando em direção a Otavalo. Pedalava lentamente na fria manhã quando notei que outro cicloturista estava mais a frente se misturando à bela paisagem: serras afiadas, parte da grande cordilheira andina. Já estou nos Andes, mas nos andes equatorianos e não no Altiplano Andino, a vasta região que se estende através do Peru, Bolívia e Argentina. Um lugar destacado no tempo, na cultura e no idioma. Uma paisagem rara. É lá que vivem os andinos, com suas tradições milenares, suas casas de pedra, ou flutuantes, suas plantações de milho, batata, tomate e coca; vivendo como viviam seus antepassados. Um povo que, apesar de massacrado pela instalação do Novo Mundo, perdendo sua terra e seu espaço, segue resistindo. Aliás, resistência é condição sine qua non para se viver nos Andes.

Para chegar ao altiplano vou ter que descer até o nível do mar, seguir pela desértica costa peruana e subir novamente perto de Lima, ultrapassando os 4.500 metros de altitude seguindo em direção ao grande lago Titicaca.

Alcancei o outro viajante já no final da subida, um holandês de quase dois metros de altura e jeitão abobalhado. Ele mesmo se definia como maluco sintomático. Contou que, quando criança, havia sido atropelado e batido forte com a cabeça. A partir daí ficou meio doido. Prometera à irmã que se melhorasse, ia rodar a América do Sul numa bicicleta.

Ele havia começado a travessia na Venezuela e pretendia contornar todo o continente sul-americano. As esquisitices não paravam por aí. Quando lhe falei minha nacionalidade, o cara quase me esmagou, tamanha a força do abraço. A-DO-RA-VA brasileiros. Não que eu achasse demonstrações de afeto algo estranhas, muito pelo contrário. Mas a situação foi um pouco descabida, nós ali na beira da estrada, tendo este papo todo. Para completar a cena, um enorme facão estava preso ao quadro da bicicleta. Quando perguntei para que servia, o holandês me respondeu com cara de pirata do Caribe: “It’s for prrrotektion!”, disse, finalizando a frase com um sorriso maligno que eu não soube definir se era de gozação ou de obsessão. Talvez um pouco de cada.

Otavalo é habitada por um grupo étnico de costumes interessantes: de elegante vestuário e música refinada. Gente de pele morena e cabelos longos, lisos e negros, presos em tranças. É até engraçado, você cruza com crianças, velhos, moços, todas as idades, todos de tranças, marca registrada dos otavalenhos. A região é ótima para comprar instrumentos musicais andinos, a zampoña (flauta de pan), a quena (estilo de flauta doce), os tambores, o charango (que lembra de longe um cavaquinho, só que com cordas duplas e caixa acústica menor feita com o casco de um tatu). Meu plano era passar por Otavalo, comprar uma zampoña e seguir viagem.

Entramos em Otavalo em pleno dia de feira-livre. Era Sábado e uma verdadeira Babilônia ululante se estendia pela praça. Os instrumentos musicais tornam a feira mais interessante e festiva, com seus vários lutiers tentando vender seus produtos no grito – ou melhor, no sopro e no dedo. Excursões são organizadas a partir de Quito, a capital. De ônibus lotados, desembarcam turistas na diminuta praça central. Eles chegam, olham, tiram fotos, compram lembranças e vão embora no final da tarde. Todo sábado isso se repete.

A caminho de uma loja de música, me deparei com um cartaz preso no poste informando sobre um show com grupos de música andina naquela mesma noite. Era a chance de conferir in loco a sonoridade que tanto me encantava. O holandês preferiu seguir viagem e eu fui em busca de uma pensão e de informações sobre a apresentação. Não podia perder aquele show.

 

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