O vento

Mesmo acordando várias vezes com o vento forte que soprou a noite inteira, pude descansar bem. Levantei sem dores, a não ser pela costumeira dureza nos músculos. Saí em jejum.

Uma das principais dificuldades que um ciclista encontra, ao contrário do que se poderia imaginar, não são as subidas, mas o vento. Agora compreendo o empenho dos engenheiros na busca de uma aerodinâmica perfeita. Desde os capacetes até o quadro da bicicleta, o formato dos sapatos, das garrafas d’água, tudo é trabalhado para exercer o menor atrito possível com a atmosfera, esta imensa massa de gases que nos ajuda a ficar presos ao chão. Os ciclistas profissionais chegam ao cúmulo de raspar os pelos das pernas. A maior preocupação é realmente o atrito com o ar e também com o solo.

A minha opção pela bicicleta touring, tinha sido feita justamente pensando nisso. No entanto, ela acabou não sendo a ideal por conta das péssimas condições do asfalto, América Latina afora. O certo teria sido escolher uma montanheira; seus pneus mais grossos poderiam encarar melhor as esburacadas e mal conservadas rodovias. Os caras que me orientaram tinham apenas a experiência de viagens nos Estados Unidos, não conheciam a realidade do resto do continente. Assim, acabei não tomando a melhor decisão. O problema são os pneus, finos e duros.

Toda essa dureza tem seu motivo: quanto menor o contato com o chão, menor o atrito! O guidom curvo permite posições a mais de manuseio, inclusive as de melhor ganho aerodinâmico. Todos estes avanços tecnológicos foram no objetivo de minimizar os contrastes da natureza. Minimizar, mas não eliminar.

Descobri o por quê a poucos quilômetros de Cuenca. O vento começou manso pela manhã e foi aumentando durante o dia. Para se ter uma idéia, precisava pedalar até nas descidas. Não era um dia comum. Uma frente fria devia estar se aproximando, porque aquilo não era um vento, era uma parede de ar! Em certo momento, a situação ficou intolerável. Uma ventania esquizofrênica soprava em todas as direções. Os alforjes me desequilibravam, eu não conseguia mais pedalar ladeira acima, só mesmo empurrando a bicicleta, e com a cabeça baixa!

Baixo também estava o humor; primeiro foi a bandeira do Brasil, arrancada e atirada à distância. Depois meu gorro. Não fosse um arbusto, teria perdido os dois. E para coroar a extraordinária passagem, um casal, indiferente ao meu suplício, parou o carro no acostamento e veio em minha direção. Pensei que seria mais uma oferta de carona, mas que nada! Queriam apenas tirar algumas fotos. Primeiro o cara colocou a esposa a meu lado, junto à bicicleta. Depois, pediu que eu tirasse uma do casal. Espantado, atendi o pedido do ingênuo par de pombinhos. No final, acabou servindo para melhorar meu astral. A situação foi tão inesperada que sorri na despedida.

Não sei se foi aquele momento ternura, mas o certo é que logo depois o vento sossegou um pouco, permitindo pedaladas mais suaves até a chegada em Cuenca, por volta das cinco da tarde.

Cuenca é também uma cidade colonial de ruas de pedra, flores na sacada, igrejas e praças. Me hospedei no Hotel Norte. Lá ficavam todos os mochileiros. Várias nacionalidades circulavam pelos largos corredores. Um amplo hotel com ares de pensão (velhinhos em pijamas assistiam TV na sala de estar). Tomei um glorioso banho quente depois de três dias sem ver sabão. Demorei tanto embaixo do chuveiro que por pouco não perco o jantar. Não a do hotel, mas o da cidade inteira.

 

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