O livro

Quando decidi fazer esta travessia através do continente americano, não fazia a menor idéia de como iria terminar, nem começar.

Para falar a verdade, não tinha noção alguma do que estava prestes a encarar. O ano era 1991, tinha 21 anos, cursava jornalismo, morava com meu pai e minha avó, tinha uma namorada e três bons amigos.

A decisão veio de repente, uma luz que acende e você diz: “É isso que eu vou fazer!”. A vida era boa, não me faltava nada que o dinheiro pode comprar, mas andava inquieto demais para o meu gosto, e algo dizia que precisava me mexer. Mais do que qualquer decisão racional, era a intuição que me empurrava em direção a uma viagem.Eu não tinha muita consciência do que estava fazendo, mas sentia que devia seguir em frente.

A história que esse livro conta nasceu de um impulso, da vontade de mudar.

A opção de usar uma bicicleta como principal meio de transporte até hoje me surpreende. Não era atleta e muito menos pretendia entrar para o livro dos recordes. Alguns me perguntaram se a opção foi pela economia ou pela independência. Ainda não sabia, mas descobriria que uma viagem de bicicleta está longe de ser sobre economizar na passagem ou alcançar a utopia da plena independência. Viajar de bicicleta é sobre respeitar as distâncias, ver mais de perto o lugar, sentir o tamanho do planeta.

Para conhecer o continente, cruzando-o vagarosamente, vendo de perto este povo que habita o sul, o norte e o centro, meus cálculos absolutamente amadores estimaram apenas um semestre: trabalhar nos Estados Unidos para levantar a grana necessária,algo que já havia feito antes, comprar a bicicleta e os equipamentos, e cruzar a América de volta ao Brasil. Na verdade, enganei amigos, namorada, família e, principalmente, eu mesmo ao dizer que não demoraria. No fundo eu sabia que não tinha data para voltar.

Iniciaria em Los Angeles, na Califórnia, e terminaria no Rio de Janeiro. Ao todo fiquei 16 meses fora de casa, 11 deles trabalhando em Los Angeles e os outros cinco atravessando o continente.

Tendo a bicicleta como eixo, acabei por utilizar todos os meios de transporte. Naveguei em transatlânticos, sacolejei em vagões de trem, peguei caronas em camionetas e carretas, andei a pé e de avião. Experimentei estações do ano, linhas do tempo, sotaques e temperos. Quatorze fronteiras, quinze países, 83 cidades em 23 semanas, 163 dias percorrendo milhares de quilômetros.

Nas longas horas pedalando nas estradas, peguei o hábito de travar discussões comigo mesmo. Afinal, era o único ali para conversar. Os temas variavam de acordo com a paisagem e com o estado de espírito

Os quilômetros sem fim me fizeram desenvolver a paciência (um pouco mais, pelo menos), a viagem solo me ensinou a tolerância, que é se colocar no lugar do outro. Sozinho em lugar desconhecido, eu dependia mais do que nunca dos outros, era preciso aprender a ouvir, a prestar atenção, principalmente para não te passarem a perna.

Dormindo cada dia em uma cama diferente, pratiquei e, mais que tudo, desenvolvi a flexibilidade e o poder de adaptação, qualidades inatas ao homem e tão pouco exercitadas na vida moderna. Agucei a observação, treinei a percepção, o olhar. Conheci lugares incríveis e outros sem sal, me meti em enrascadas, fui assaltado, ganhei irmãos, dormi em delegacias, postos de gasolina , ambulâncias, casas de família e bons hotéis. Passei dias comendo apenas batata, tomate e arroz, atravessei desertos, nevascas e cordilheiras, mas cheguei intacto para poder narrar o que vivi. Está aí um bom motivo para se viajar, ter boas histórias para contar aos netos.

Hoje, olho para trás e vejo esta viagem como um marco divisor em minha vida. Espanto-me de tê-la feito com apenas 21 anos, mas talvez tenha sido, para mim, a idade certa. Durante os dez anos que separam esta viagem da publicação do livro, muitos me perguntaram e incentivaram para que ele fosse realmente publicado.

Escreve-lo não foi fácil. A cada linha escrita e ostensivamente revisada, fazia eu novamente o percurso, vivia novamente a viagem. Mas agora o livro está pronto. Agora é a vez do leitor viajar.

Então, meus caros, pé na estrada, ou melhor, pedal!

 

 

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