O ataque dos vira-latas

Luis me acompanhou até a saída da cidade onde nos separamos perto da polícia rodoviária. Os policiais foram bacanas: não só permitiram que eu ficasse por ali até conseguir uma carona, como também se empenharam em me ajudar. A cada caminhão ou caminhonete que paravam, perguntavam o destino. Assim, experimentei outra longa travessia caminhoneira, 28 horas de estrada. Comigo na caçamba, iam outros oito rapazes, os carregadores. O caminhão era tão grande que todos se aglomeravam sobre um avançado acima da boléia. Como as laterais eram altas, para se observar a vista era preciso se subir nas paredes de madeira e ficar dependurado na borda. Ficava ali horas a fio vendo a paisagem monótona do litoral peruano. Dormir durante a noite foi praticamente inviável. Além do balanço e do barulho, a poeira de enxofre do carregamento anterior voava direto para dentro do meu nariz – um suplício para quem é alérgico como eu.

Saltei no entroncamento da estrada Tacna Arequipa por volta das cinco da tarde do dia seguinte. Quebrado e empoeirado, avistei, a cerca de 50 metros, outro posto da polícia rodoviária. O carcereiro era o único que morava naquele meio de caminho onde, além do posto e de algumas lanchonetes improvisadas, nada mais existia. O carcereiro, que também criava galinhas no quintal, me concedeu a dormida em uma das celas, quero dizer, salas. Mas o capitão, que chegou depois, não gostou do estranho, decidiu assim, dar uma geral em meu equipamento.

Mandou-me esvaziar os alforjes e apalpou cada pedaço em busca de algo extraordinário, pelo menos era o clima que fazia; silencioso e circunspeto. Esvaziei quase todas as roupas e equipamentos, espalhando-os pela mesa. Mas o único item que parecia ter cativado a atenção do capitão foi o diário, que, apesar de minha advertência quanto ao caráter pessoal dos escritos, foi folheado com interesse impertinente. Indignado, mas em desvantagem, aguardei impaciente o final daquela situação. Tudo sob a luz de uma única vela, faltava luz.

Não passava das seis da manhã quando deixei os policiais, o sol dourava a relva ainda úmida de orvalho. O barulho da engrenagem da bicicleta era o único som que se ouvia. Quase nenhum veículo trafegava àquela hora. Uma solitária lanchonete ia se aproximando. Nenhum carro parado na frente ou sinal de atividade. O expediente estava longe de começar, assim como o plácido cenário parecia imune a qualquer perturbação. Parecia.

Minhas pedaladas já estavam quase aquecidas quando, subitamente, do meio do matagal que se espalhava na lateral da rodovia, três cachorros ergueram a cabeça num gesto ensaiado, provavelmente assustados com minha passagem. Reação natural da cachorrada. O que me intrigou foi que, num impulso coletivo, os três saíram em disparada em direção aos fundos da casa.

“Que reação estranha!”, pensei. Segundos depois, percebi que minha segurança pessoal e material acabavam de ficar severamente ameaçadas. Aos três caninos, somaram-se outros três. Eram agora seis cachorros em disparada não para longe, mas para cima de mim. E, pelo timbre do latido, não estavam de brincadeira. Lembrei da máxima: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. A cachorrada tem esse hábito maluco de correr atrás de carro, charrete, bicicleta, tudo o que se move. Ninguém sabe explicar muito bem por quê. E eu não estava querendo ficar por ali para descobrir. Abri um pouco mais para o centro da pista e respirei fundo aguardando os desdobramentos. Voltar não ia adiantar, aquele era o único caminho, não podia pedalar mais rápido por conta da subida. Achei que o melhor a fazer seria continuar pedalando no mesmo ritmo, torcendo para que alguém dentro da casa pudesse escutar os meus gritos. De qualquer forma, minhas pernas em movimento seriam um alvo mais difícil às presas. Quem sabe queriam apenas se divertir com alguém naquela manhã?…

Logo me vi cercado por todos os lados pela cachorrada, que latia sem parar. Se fossem só os latidos, até que dava pra negociar; mas aí começaram as mordidas. A matilha parecia ensaiada; cada um tinha uma função: três latiam loucamente, dois cercavam e um se encarregava das dentadas. Tentando me fazer invisível e não provocar ainda mais os animais, me limitei a pedalar e pedalar.

As rodas em movimento não deixavam o maior deles abocanhar o pneu traseiro; outro se engraçava com os alforjes e com meu calcanhar. Mas nada grave aconteceu. Então, eles foram cansando. Dois pararam de correr e ficaram apenas latindo; outros dois desistiram. E, quando tudo se encaminhava para a calmaria, o feroz da turma abocanhou em cheio o chapéu de palha comprado na Colômbia. Um autêntico Chapéu Panamá nas garras de um cão colérico, não teve a menor chance. Foi aí que perdi a paciência. Num repente, parei a bicicleta e gritei: “xô!!” Foi um tal de cachorro correr pra dentro do mato…

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