Nevasca em Copacabana

Durante a noite, a chuva que caiu ininterruptamente sobre Copacabana se transformou em nevasca, cobrindo toda a cidade. Foi um volume tão grande, que logo cedo começou a circular a notícia de que todas as saídas estavam bloqueadas. Enquanto não parasse de nevar, a situação não mudaria. Segundo a dona da pensão, onde eu estava hospedado, não nevava assim há muito tempo.

No que diz respeito a vestimenta, meu leque de opções não foi preparado para a neve. Para escapar do frio, tive que vestir todas as roupas, várias camisas sobrepostas, três meias, dois gorros, capa de chuva e o cachecol na cara. Mesmo assim o frio não parava de aumentar, principalmente porque eu não conseguia manter uma meia seca.

Valendo-me de um milenar costume local, pensei em me safar daquele frio mascando folhas de coca, conhecida não só por dar energia mas por afastar o frio. Passei no mercado e comprei um saco. Saí mascando, mascando e por quarenta minutos fiquei fazendo caretas com aquelas folhas amargas. E poderia continuar mascando por quarenta horas que não sentiria efeito algum. Mal informado, acabei deixando de comprar o segundo ingrediente que completa, ou melhor, que libera a alquimia da coca: a llipta, uma massinha feita de cinzas de ervas, necessária para catalisar os alcalóides.

Os povos dos Andes mascam coca há séculos, desde 3000 aC para ser mais preciso. Considerada uma planta divina, um presente dos deuses, a coca era privilégio dos nobres e imperadores. Com a queda do império incaico, o povo passou a usá-la como um estimulante para suportar o trabalho pesado, o frio e a fome. Os espanhóis, por sua vez, viram nos poderes da planta um benefício para lucrar ainda mais.: mascando coca, os indígenas conseguiam trabalhar 18 horas por dia.

A história da coca para os ocidentais começa em meados do século XIX, no auge dos tempos modernos. Máquinas a vapor facilitavam e transformavam as relações de trabalho, criando estilos de vida mais velozes e especializados. Tanta maquinaria traria logo a conta: stress, fadiga, depressão, insônia. Os farmacêuticos se empenhavam em descobertas para curar os novos males. Buscavam em todo o mundo extratos que pudessem misturar em suas panacéias A medicina engatinhava: sangrias e febres induzidas ainda eram a praxis.

Intrigados com os poderes da coca andina, os químicos conseguiram isolar seu alcalóide: batizado como cocaína. Logo a descoberta estaria sendo utilizada como estimulante mundo afora em receitas farmacêuticas. Na Europa, um italiano chamado Ângelo Mariani resolveu misturar alguns miligramas de cocaína ao vinho Bordeaux, inventando o Vin Mariani.

O composto foi um grande sucesso. Fazia com que as pessoas se sentissem melhor, “clareava as idéias, revigorava o espírito e tonificava o corpo”, era o que se dizia à época. Mas não era só ele que estava utilizando a novidade. Outros vários corriam para registrar suas invenções. Surgiam comprimidos, ungüentos, injeções, cigarros e até chicletes, o Coca-Bola, acredite se quiser! Muitas imitações do Vin Mariani também surgiram.

As propriedades da coca eram tão fascinantes que seduziram Sigmund Freud, levando-o a escrever o ensaio Über Coca (Sobre a Coca), em que exaltava as possibilidades terapêuticas da cocaína, alardeando-a como substituto à morfina e ao ópio.

A notícia circulou rapidamente nos Estados Unidos. E lá também as invenções se multiplicaram. Uma delas ganharia fama e o mundo.

John Pemberton era mais um farmacêutico em busca do sucesso com seus preparados. Inspirado no Vin Mariani, criou o Vinho de Coca Francês de Pemberton. Não negava a origem, mas informava que em sua fórmula havia acrescentado outro ingrediente recém-descoberto em uma semente retirada de uma árvore africana: a Kola. O alcalóide da Kola era a cafeína, estimulante já conhecido, presente no café, no tabaco e em diversos chás. O que Pemberton fez foi unir os dois criando um poderoso energético capaz de suplantar tudo até então conhecido.

 

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