Esperando a encomenda

Quetzaltenango é uma charmosa cidadezinha guatemalteca. Limpa e organizada, é um boa pedida para relaxar e absorver cultura. Quetzaltenango fica fora da rodovia Panamericana, uma breve viagem de 20 minutos desde Quatro Caminos, onde pernoitei em uma cama velha e pestilenta em um quarto desativado nos fundos da sede da polícia rodoviária. Pela aparência lastimável, acho que um cachorro dormia ali também. Para não ter problemas com pulgas, borrifei meu repelente no colchão e cobri com o cobertor térmico.

Nos arredores de Quetzaltenango ficavam povoados indígenas, entre eles, Amolonga que estava em dia de mercado. Cada povoado tinha o seu dia de feira, que era quando a população descia dos sítios para comercializar a produção, seja hortifruti ou artesanato. Encontrei a cidade em polvorosa: cestos com mercadorias por toda parte, caminhões abarrotados e muitas mulheres carregando seus filhos amarrados nas costas com belíssimos tecidos.

Aliás, a tecelagem desses povos, os tais pré-colombianos, é refinada, com intrincadas padronagens em cores vivas. Os tecidos variam de grossas mantas a delicadas sedas. Um belo vestuário, preservado apenas nas mulheres, que parecem mais ligadas a suas raízes culturais. Os homens que vi já trajavam roupas ocidentais e chapéus de vaqueiro.

Eles não gostam de ser fotografados, principalmente as mulheres, e caso aceitem, o fazem apenas por uma quantia. Essa relação comercial foi gerada pelo intenso fluxo turístico dos últimos anos. Como alguns estrangeiros não chegam com o devido respeito, fotografando indiscriminadamente, os fotografados começaram a se sentir invadidos. Hoje, sempre que percebem uma lente apontada em sua direção, viram de costas.

O tempo lhes ensinou que imagem vale dinheiro, e se aquelas pessoas pagavam para chegar até ali, para levar as imagens, teriam que pagar também. Foram turistas mais esclarecidos que os alertaram; muitas fotos seguiam para ilustrar revistas especializadas em geografia, turismo e aventura, só que nenhum centavo do lucro retornava à região. Penso que seja uma questão de postura, como se chega e como se aborda. Naturalmente, se você gosta de fotografia e quer voltar para casa com uma imagem que o impressionou, por vezes vai ter que se valer de alguns artifícios, mas tudo depende do bom senso, o velho e bom senso! O problema está no vínculo que se formou, atualmente funciona como esmola, a pessoa vem e te pede: “saca una foto mia señor!”

Ignorando esta situação, acabei passando por um constrangimento. Sentado no meio-fio observando uns meninos jogando bola de gude, fui abordado por duas meninas. Perguntaram meu nome, de onde era, para onde ia, etc. Em seguida, como a minha câmera estava pendurada no pescoço, pediram a foto. Foi só ouvir o estalo da câmera para me cercar pedindo: plata! plata! plata! Eu achei aquilo estranho mas como tinha algumas moedas no bolso, resolvi dar. Foi meu erro, em segundos mais de dez crianças pularam em cima de mim pedindo as tais pratinhas. Um, de tão empolgado, veio correndo e se lançou no meu pescoço. Ria daquela bagunça, mas o fato é que era uma situação lamentável. Desvencilhei-me da criançada sob os olhares de reprovação de alguns adultos. O que é que eu podia fazer? A partir de agora já sei, fotos, só com a teleobjetiva.

Regressei a Quetzaltenango para o almoço e para telefonar a Pedro Bervian, um brasileiro que vive em Antígua, primeira parada na América Central. Quem me indicou Bervian foi Denise, professora da Casa de Estudios Brasileños, na Cidade do México. Denise e Pedro Bervian saíram de Porto Alegre há oito anos atrás. Sem um destino específico, caronando e ganhando a vida em pequenos biscates, foram até a Venezuela, passando por toda a costa brasileira e pelo Suriname. Pensaram em chegar até a Europa, mas o destino os largou na Cidade do México. Denise, grávida, resolveu parar por ali. Pedro desceu até a Antígua, a antiga capital da Guatemala. Pelo telefone não deixamos nada acertado, apenas de nos encontrar, provavelmente dentro de um ou dois dias. Um contato assim é sempre bom.

Estava ainda no alto da serra. O frio não incomodava enquanto pedalava, só o vento. Existe uma peça de vestuário para ciclistas que se chama windbreaker, na tradução literal, corta-vento. É feito de um tecido especial que deixa a transpiração sair mas não deixa o vento esfriar o corpo, provocando um mínimo atrito com o ar já que é desenhado para ficar justo no corpo. Não comprei um de início porque achei que já estava carregado demais com acessórios, além de já ter um casaco emborrachado e outro de lã.

Acontece que o primeiro não deixa a transpiração sair e, com o esforço das pedaladas, você fica encharcado de suor. No caso da lã, além de ficar molhado, o vento ainda passa entre os nós do tecido.

Já venho sentindo a falta do windbreaker há algum tempo. Telefonei outro dia para a Adeli e pedi a ela que me mandasse um. Eu precisaria de um endereço onde eu pudesse aguardar por alguns dias. A Antígua de Pedro se encaixava perfeitamente.

Mas falávamos da serra, do frio e da neblina que me apanharam no final do dia. Com visibilidade quase nenhuma, talvez dois metros, se isso, pedalava vagarosamente avançando sobre o desconhecido. O resto de claridade de fim de tarde me deixava em um cenário branco, sem profundidade ou altura, apenas um nada. Acendi minha pequena lanterna, agora uma barra de luz que lembrava as espadas a laser de Guerra nas Estrelas. Não ajudava muito a não ser distinguir a aproximação de eventuais buracos, que poderíam me deixar ali no meio daquelas nuvens consertando um pneu furado.

Tomei um susto quando do meio do nada apareceram várias crianças indígenas correndo e gritando. Me acompanharam por alguns segundos e sumiram de novo na névoa. Em seguida foi minha vez de dar um susto. Um menino vinha caminhando distraído, não percebendo minha aproximação continuou no meio da pista. Abri para a esquerda para ultrapassá-lo, mas o garoto tomou a mesma direção. Quando ele virou para trás, viu aquele vulto em cima de algo que ele não soube identificar e um facho de luz na mão. O guri soltou um berro e sumiu em disparada para dentro do milharal. Coitado, deve ter pensado que eu era um extraterrestre, um rei barbudo.

A bruma parecia uma cartola de mágico, não parava de sair surpresas. Desta vez, um senhor, velho demais para ase assustar. Foi minha chance de perguntar sobre um local para comer e passar a noite. Santo encontro! Não fosse ele, teria passado direto pela última chance de hospedaria antes da chuva desabar, o nevoeiro estava ainda pior e eu certamente não teria visto o local, um pouco afastado da estrada. A proprietária disse não ter nenhum lugar que pudesse me oferecer, então eu perguntei se não poderia colocar meu saco de dormir ali no canto junto com a lenha. “Se você acha que consegue dormir aí no meio dessa lenha, tudo bem”, respondeu a senhora. Afastei as madeiras e me alojei entre elas e a parede, a bicicleta cuidadosamente a meu lado. Faltavam 100 km para Antígua.

De manhã é que veria que não se tratava apenas um restaurante e sim de uma vilazinha. Tinha cruzado várias casas sem nem ao menos perceber. Antígua Guatemala, que tem este nome por ter sido a antiga capital, não só da Guatemala, como de todo Vice Reinado da América Central, é uma cidade colonial e pólo de atração de viajantes, tanto pela plasticidade e tranqüilidade, mas pelo programa de aprendizagem intensiva de espanhol. O interessado se hospeda numa casa de família, freqüenta o curso de espanhol e curte as redondezas. A arquitetura de Antígua lembra Parati, no estado do Rio: ruas de pedras, janelas de moldura grossa e colorida. Todavia, o que mais impressiona é o conjunto visual que forma com um imenso vulcão, colado à cidade.

 

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