Brazil Grill

Cada vez que aparecia um novo cliente na porta meu desespero aumentava. O restaurante cada vez mais lotado e eu, único garçom, sem saber o que fazer com outro casal que, em pé na porta, me fitava com olhares fulminantes: “Não vai nos sentar não, ô garçom?!” Em minha mão esquerda um Chicken Churrasco; na outra uma porção de farofa, e eu sem lembrar para que mesas haviam sido pedidos – superestimara minha memória.

Era uma noite catastrófica, tudo estava dando errado diante de um fenômeno que a princípio nos parecia inexplicável: o sucesso. Realmente não esperávamos mais que uma noite comum de sábado para um restaurante mal localizado, com alguns meses de vida e um nome inventado: Brazil Grill.

O Brazil Grill foi meu primeiro emprego assim que cheguei nos EUA. Consegui a vaga de garçom graças a um contato de minha mãe com o editor de um jornalzinho chamado News from Brazil, que circulava na comunidade brasileira em Los Angeles. O editor, que era também o fotógrafo, o repórter e o diagramador, me adiantou a oportunidade antes que o anúncio fosse publicado.

O pequeno restaurante brasileiro, uma hora de carro de onde morava, não tinha mais que quinze mesas, sempre em ritmo lento. Poucos fregueses. Na propaganda que veiculávamos no mesmo News, descrevia-se o ambiente como acolhedor com um cardápio de especialidades brasileiras. Dois coqueiros ilustravam o estereotipado anúncio. O que eu achei lamentável.

Eu até que me esforçava em ser um garçom simpático, agora, se eram comidas típicas se torna uma questão relativa, afinal, o que vem a ser a comida típica brasileira se não uma questão de perspectiva? É feijoada? Então o que dizer do acarajé, da couve mineira, da galinha cabidela, da anta assada, da moqueca capixaba ou do tucupi?

Bem, tínhamos guaraná e assim estávamos felizes. Na verdade o Brazil Grill estava mais para especialidades gaúchas; servia grelhados: meat e chicken churrasco (pronunciado tchuuráscou), respectivamente. O dono, um norte-americano casado com uma brasileira, inspirado nas carnes que comia em um restaurante argentino, e talvez querendo agradar a esposa, decidiu abrir o Brazil Grill. Achou por bem chamar a sogra Lola, que morava há décadas nos EUA, para administrar as “especialidades”.

Quem cozinhava era Sueli, uma carioca de trinta e poucos anos, filha de nordestinos. Era outra que tinha acabado de chegar na cidade. Vendera tudo o que possuía para comprar a passagem Rio Los Angeles, deixando para trás o emprego e o noivo. Era agora só esperança na vida nova, em uma vida mais digna.

A nossa cozinheira chefe (e única), também estava em apuros nesta noite. Com pressa para atender a todas as mesas, eu rabiscava de qualquer maneira os pedidos em pedacinhos de papel. Sueli se esforçava para entender meus garranchos nas várias comandas que tremulavam sob um enorme exaustor. Para aumentar ainda mais a confusão, Lola, que supostamente deveria coordenar as atividades, perdia seu tempo conversando alegre e distraidamente com um grupo de conhecidos na mesa perto do balcão. Mesa que eu deveria ter chamado de um, dois, A, Xis, ou qualquer padrão que a marcasse, mas havia confiado na memória e por isso estava agora perdido no meio do salão com o frango with faroufah na mão sem saber para onde ir, e provavelmente frio.

Éramos quatro: Lola, Sueli, Alfredo e eu. Além de atender as mesas, minhas funções incluíam chegar ao local às nove da manhã, passar um pano no chão, arrumar as mesas, abastecer as saladeiras e geladeiras, ligar os ventiladores e a musiquinha ambiente, etc. Sueli pilotava os fogões e temperos, Alfredo, imigrante salvadorenho, fugindo da guerra em seu país, cuidava dos bastidores, ou seja, lavação de pratos, panelas e afins; e Lola tentava gerenciar a casa, tentava… Lola ficaria melhor apenas como relações públicas, tamanha sua vocação para o bate-papo nas mesas.

Paulista, Lola quase não sabia mais o que era Brasil, sua percepção em relação à terra natal estacionara na morte de Getúlio. Era sempre aquele papo de que no Brasil a situação não tinha jeito mesmo, de que o país nunca ia mudar. Tipo de comentário que particularmente me irrita.

Aliás, não só Lola parou nos anos 50; os norte-americanos continuam achando que Carmem Miranda é nossa grande estrela, que Aquarela do Brasil é nossa principal canção e que nosso produto de exportação é o café, apenas. Nada contra a Pequena Notável, Ary Barroso ou o cafezinho, muito pelo contrário; mas é que caminhamos um bocado desde então.

Apesar de tudo, no final das contas a gente até que se divertia. Aquele dia de cão fora realmente algo de extraordinário. Soubemos depois que uma reportagem de um famoso gourmet exaltara os sabores de nossa “comida caseira”, o que explicava o sucesso de público. Nos dias comuns, a gente ria das besteiras um do outro, trocando sonhos em uma terra tão idolatrada por nós, brasileiros, mas de realidade tão distante dos seriados de TV ou dos pacotes turísticos nos parques de diversão.

Populosa e multi-étnica, Los Angeles é a cidade perfeita para o pequeno emprego. Aos poucos ia conhecendo outros tantos que buscavam se defender com as mais criativas idéias. Motoristas de madame, entregadores de pizza, limpadores de piscina, faxineiros, babás, comerciantes, uma infinidade de quebra-galhos. Os exilados-econômicos. Mas sem sombra de dúvida, o ramo que mais acolhia era mesmo o dos restaurantes: garçons, lava-pratos, cozinheiros, recepcionistas; sem distinções de etnia, nacionalidade, cor ou opção sexual. Em Los Angeles há vagas para todos.

Adeli

A decisão da viagem para Los Angeles e a volta de bicicleta saiu de um impulso. Vinha sentindo um incômodo, um mal-estar, uma estranheza, um tédio em relação a tudo. A cura, no sentido maior que é o de amadurecer, me pareceu ser uma viagem, em que tudo ao meu redor se transformasse, sem chances para a preguiça, para o comodismo que acaba se impregnando no dia-a-dia. Precisava me colocar em movimento.

Fui sem pedir conselhos ou consultar ninguém. Com mais dúvidas do que certezas, poderia acabar sendo convencido do contrário, e isso eu sabia que não queria. Só comuniquei à minha família e aos amigos depois do fato consumado. Tranquei o curso de jornalismo, vendi minha moto e comprei uma passagem Rio Los Angeles pelas Lineas Aéreas Paraguaias. A decisão era agora irrevogável.

Não dividi muito os meus planos, para falar a verdade não comentei sobre a volta de bicicleta com quase ninguém. Como não sabia aonde ia dar aquilo tudo, preferi ser discreto. Os amigos no Brasil ficaram surpresos quando souberam da viagem. Minha namorada então, nem se fala, ficou apreensiva com aquela história maluca.

Uma das poucas pessoas que estava a par da minha aventura era meu pai, e espantou-me o fato dele não ter ficado surpreso. Talvez por reconhecer e entender o espírito da aventura correndo nas veias da família, ele mesmo já havia feito muita coisa parecida.

A próxima pessoa a tomar conhecimento dos planos se tornaria muito especial. Uma mulher de coração único, que me hospedaria, ainda mais, que me guardaria. Seria mais do que hóspede; compartilharia, enraizaria, tornando a inevitável hora da partida um momento delicado. Muitas alegrias, brigas, laços e nós iriam rolar e desenrolar. Adeli Antonia (ela prefere só Adeli), prevendo ou não, daria o apoio moral, o fôlego que me faltaria.

Adeli foi outra que veio para ficar. Fala com tristeza do Brasil que deixou para trás, da falta de seriedade e respeito, do preconceito racial. Nascida em Cordovil e criada em Vigário Geral, subúrbios cariocas, trabalhava durante o dia como professora em escolas públicas e à noite com processamento de dados. Sempre trabalhou pesado. Chegou em Los Angeles em 1986 e aqui aprendeu a falar inglês e a dirigir automóveis. Adeli trabalhava agora como faxineira.

Minha mãe a conheceu em 88, casualmente numa festa de brasileiros. Sempre atenciosa, era a pessoa a quem ela poderia fazer tal pedido, o de abrigar um filho que vinha passar alguns meses para juntar uma grana e depois sair viajando por aí de bicicleta. Não sei o que Adeli imaginou, mas me recebeu de braços abertos em sua arejada casa em um bairro próximo ao centro da cidade…

 

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