A última carta

O esforço começava a gerar seus frutos. Resolvi dar uma conferida nas economias e levei um susto: já tinha o suficiente para fazer a viagem. Assim, reiniciei os preparativos para a travessia. Aproveitei que uma mega exposição, com todo tipo de produto relacionado ao ciclismo, estava acontecendo para correr em busca de mini patrocínios e doações de peças. Os stands traziam as últimas novidades, futurismos, freios a disco, bicicletas de liga de titânio! Andei pelos corredores durante três dias. No primeiro, averigüei o que poderia me interessar, e no terceiro, quase antes de fechar, dei uma volta me apresentando e pedindo doações do material exposto. Saí com quase duas sacolas de apetrechos. Além disso, dispunha agora de um considerável acúmulo de informações sobre bicicletas, equipamentos e técnicas. Depois daquela exposição, eu sabia o que vinha de novidades pela próxima década.

O clima lentamente se transformou, um frio na barriga apareceu, eu sentia o dia da partida chegando, se aproximando irrevogavelmente. Incrível e arrepiante sentimento, como um vento que sopra de mansinho, anunciando o temporal. O que antes era um sonho, só um pensamento, meta, imaginação, se transformaria em realidade. Acho que os sonhos são assim, assustadores quando ganham vida e olham dentro dos seus olhos dizendo: “Agora é com você!” Iria realmente encarar aquela travessia, era hora. O décimo primeiro mês se iniciava e com ele o fim da longa primeira fase. Muito mais do que eu esperava aconteceu, praticamente uma vida para quem vinha de passagem, apenas para um ponto de partida. Onze meses. Sem perceber, estava vivenciando a “cura”. Só agora compreendo que tudo isso foi necessário, esse tempo de cozimento. Vão ficando para trás raízes que nem imaginava deixar crescer, amizades, outros tantos brasileiros esperando dias melhores: “Quando melhorar eu volto”, me disse alguém. Eu volto pra melhorar

Uma última carta chegou. Era do companheiro de faculdade Edmundo.

Voltei a caminhar pelas ruas, coisa que há muito não fazia, desde os tempos das nossas andanças pelo Jardim Botânico, cabeça viajando, pensamentos à flor da pele. Vou sozinho agora, pensando, sentindo o mundo. Há tormentos, há muitos tormentos, e às vezes o coração faz que não vai agüentar. Respiro. A caminhada é longa. Sinto o princípio de uma construção, dia-a-dia trabalhamos em algo que só o dia a dia irá mostrar. Acredito. Tenho medo, mas como nunca, acredito. Às vezes, parece que conforme se cresce e se vence o medo, grande ele volta, vem maior, como se crescesse conosco. Tiro então a espada da bainha do coração e enfrento meus dragões. Sinto a paixão dos meus 15 anos voltando, com outra cara, mas voltando, me atravessando com suas vontades, seu querer. Deixo-a falar; assim como sei que alguns brotos são arrancados para outros poderem crescer, é o que me diz o chão. Não existe horizonte, porque sempre vem outro atrás do que se já atingiu. As palavras às vezes soam equivocadas, às vezes voam. Companheiro, companheiro … Coração! Cor Ação!

O ar costuma revelar suas cores para quem sente e age no movimento, esse movimento que nasce, cresce, morre, nasce, cresce, morre… Tem um verso do Mário Quintana que diz assim: ‘Alma é aquela coisa que nos pergunta se alma existe’.

Corpo e Alma juntos. Fogo e Água juntos. Terra e Água juntos. A galera junta.

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