A mais longa subida

Tive uma noite como há muito precisava. A cama estava deliciosa e acordei no espírito do pedal. Vagarosamente fui deixando Arequipa para trás, atravessando, como sempre, toda a periferia, triste e abandonada periferia. De bicicleta se chega mais perto, se vê com mais tempo.

O vulcão El Misti, adormecido, vela a cidade, deixando a seca paisagem mais bela. A estrada segue o trajeto de um antigo caminho inca, a Estrada de Cuzco, capital do império incaico. Pavimentada com pedras, ela permitia que os cidadãos de Cuzco desfrutassem de peixe fresco nas alturas andinas. A estrada não só era pavimentada, como dispunha de muretas de proteção e caneletas para escoar a água das chuvas .

Construída em zigue-zague para amenizar a forte inclinação da subida ao altiplano, ela segue a perder de vista. Assim, as distâncias aumentam, e a taxa de ganho em altitude diminui, ou seja, pedala-se mais e sobe-se menos. Para mim é ótimo, já que este artifício diminui o esforço de subida, poupando os joelhos e o fôlego. O soroche, o enjôo das montanhas, é uma ameaça, mas acreditava que não teria nenhum problema pois subiria vagarosamente. Além disso, meu corpo andava mais resistente do que nunca.

Só para se ter uma idéia desta extensão, logo no início da subida avistei um veículo descendo. Mas estava tão distante que era difícil identificar qual o tipo ou mesmo a cor, e nem acreditar que a estrada chegaria até lá. “Talvez fosse outra”, pensei. Tomou-nos três horas entre o primeiro contato visual e o momento em que efetivamente nos cruzamos. Eu já tinha até esquecido do tal ônibus. Agora, se ele tinha levado aquele tempo todo para descer, imagina… Bem, melhor pensar no lado positivo, a paisagem ficava mais exuberante, o vulcão El Misti cada vez maior e Arequipa cada vez menor, perdida no cenário. Eram os Andes finalmente; e os Andes, como não poderia deixar de ser, impõe respeito.

Até o final do dia foram 92 quilômetros subindo sem cruzar com muita coisa; no máximo um ou dois carros de passeio. Com a noite caindo e sem a perspectiva de encontrar um local para me abrigar, preparei o espírito para uma noite ao relento.

Bem perto de uma mina d’água – aliás, a única em todo o trajeto – jazia um conjunto de casas em ruínas. Para ser mais preciso, um conjunto de paredes em ruínas. Era numa daquelas “casinhas” que eu iria me alojar. Pelo menos estaria protegido do vento. Todos os cômodos estavam sujos. Além de pedras e galhos, o local havia se transformado em banheiro público. Aquele olho-d’água servia de parada obrigatória para todos os que desciam ou subiam os Andes. Com uma tampa de lata de óleo que encontrei largada, retirei as fezes petrificadas pelo sol e pelo frio em um dos cômodos que me pareceu mais aceitável. Varri a terra e cobri com o cobertor térmico o local onde dormiria.

Não demorou para chegar companhia. Um caminhão e um ônibus estacionaram para uma breve parada. Tomei cuidado para não ser visto, me sentia extremamente frágil naquele lugar a quilômetros de qualquer ponto de apoio. Não queria que meu esconderijo fosse descoberto. Passaria uma noite desguarnecida, melhor ficar incógnito.

Aguardei meia hora abaixado enquanto o pessoal se refrescava. Quando se foram, ergui novamente a cabeça. O pôr do sol estava deslumbrante no céu límpido de altitude. O frio aumentava rapidamente, precisava me proteger o quanto antes, preparar a dormida e um breve lanche: banana e pão. Com o fim da luminosidade, me enfiei dentro do saco de dormir.

Havia pago quase o dobro do preço por aquele saco especial devido a duas qualidades: agüentava frios abaixo de zero e ocupava pouquíssimo espaço. O truque? Seu enchimento era feito de penas de ganso, menos volumosa que a fibra sintética utilizada nos sacos convencionais. É claro que fiquei preocupado com a questão ecológica, não queria ser o patrocinador de nenhuma crueldade aos animais, mas a própria etiqueta explicava o processo, indolor e aproveitando a muda natural de plumagem.

A bicicleta ficou no vão de entrada do cômodo. No corredor desloquei umas pedras para dificultar a passagem. Se alguém resolvesse ir ao “banheiro”, tropeçaria nelas. Não era para machucar, apenas para atrapalhar a passagem e provocar algum tipo de barulho para não ser pego de surpresa. A bicicleta no caminho ajudaria a manter afastados eventuais animais noturnos. E no mais era entregar aos anjos da guarda

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