A décima quarta fronteira

O sol reapareceu e fez espelhar as águas do Rio da Prata. Um moderno ferry-boat atravessou o largo estuário em três horas. Lá vinha o Uruguai, um hiato entre eu e o Brasil, não mais que 400 quilômetros me separavam da chegada à fronteira brasileira, cada vez mais real.

Uma alegria misturada com ansiedade começou a me contagiar. Corri na casa de câmbio para trocar alguns cheques em pesos uruguaios e guardei-os dentro do passaporte. Cada vez mais empolgado, subi na bicicleta sem nem mesmo trocar a calça jeans pela lycra. O Brasil estava logo ali e não podia esperar.

A euforia quase me faz um prejuízo. Dez quilômetros depois, parei para trocar de calça, não dava para ficar pedalando vestido naquele jeans todo suado. Foi aí que percebi que o passaporte tinha caído do meu bolso. Merda!

Se fosse só o dinheiro, que ficara dentro do documento, eu nem esquentava a cabeça, nunca trocava muito de uma vez. A maior decepção era pelo valor afetivo e simbólico daquela cadernetinha verde. As páginas carregavam os carimbos dos países visitados, relíquia de viagem. Voltei pedalando vagarosamente tentando encontrá-lo, olhando com cuidado dentro do mato junto ao acostamento. Por muita sorte, encontrei-o a uns trezentos metros atrás, já sem a grana, o que me obrigou a voltar ao porto para trocar mais cheques. O atraso me jogou noite adentro na estrada.

Mas a animação era contagiante. Eu já começava a sentir o cheiro do Brasil. Uma vontade incontrolável de chegar à última fronteira me empurrava para frente, minha décima quarta. Segui noite adentro, a lua e o pouco movimento na estrada encorajavam.

Consegui pedalar ainda por umas duas horas numa estrada praticamente deserta até encontrar um galpão vazio, que pareceu perfeito para passar a noite. O lugar dava a impressão de funcionar como estábulo, o chão estava coberto de feno, o que seria bom para amaciar “a cama”.

Quando estava quase adormecendo, ouvindo uma música no radinho, percebi um som que pareceu ser de alguém, ou algum animal, se aproximando vagarosamente. Gelei dos pés a cabeça. Melhor mesmo, pois se mexesse poderia denunciar minha posição. Quem sabe ainda não tivesse me visto. Além do mais, eu não poderia fazer nada a respeito, metido dentro do saco de dormir, com o zíper fechado até o pescoço para escapar do frio, estava em total desvantagem para qualquer reação. Gritar não adiantaria, sair correndo muito menos.

Com os olhos esbugalhados, tentando captar qualquer variação de luz, qualquer sombra, fiquei naquela agonia durante longos minutos, tentando identificar “o inimigo”. O som, se é que não foi fruto da minha imaginação, não voltou. Devia ter sido um bicho qualquer. Pelo menos achei melhor acreditar assim. Quando não se tem outra saída, não resta outro jeito a não ser ignorar o medo.

Dormir naquele estábulo me fez lembrar da infinidade de lugares onde já havia passado a noite. Realmente fizera certo ao deixar a barraca para trás lá na Cidade do México. É um processo diário de ajuste a novas situações. O conforto é uma coisa boa, mas não deve se transformar em uma amarra, um grilhão. Incrível o poder de adaptação do ser humano, estamos sempre nos adequando às mudanças, de lugar, de parceiro, de trabalho, de vida. Somos camaleões sociais.

Dormi dentro de caminhões, ambulâncias, em postos de gasolina, na beira da estrada, em hotéis, sentado no banco de madeira do trem entre Oaxaca e Cidade do México, em quartéis da polícia, sedes da cruz vermelha, na areia da praia, casas de gente simples, ginásios, igrejas, albergues, asilos, delegacias, etc, etc, etcs. Continuo vivo e respirando. E para dar uma folga ao conforto, vá lá, tenho comigo a meu saco de dormir forrado com as tais penas de ganso…

Campeão da Copa de 50, Uruguai é classe média. Um país com mais vacas e ovelhas do que pessoas. Uruguaios são brancos e mestiços e, como os argentinos, fazem questão de frisar sua descendência européia. Sofrem da mesma arrogância.

Pude sentir na pele este preconceito. Em Montevidéu, saí para andar no centro da cidade. Entrei no primeiro restaurante que apareceu. Como vocês sabem, minha aparência não anda das melhores: os cabelos longos e desgrenhados, a calça rasgada e a barba por fazer.

Os olhares começaram a me fulminar, uma certa tensão se estabeleceu entre os garçons. Será que eu estava tão mal assim? Sentei sozinho em um canto, quase me escondendo. Pedi couvert, entrada e sobremesa. Gorjeta incluída.

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